Rubens Lima

Um poeta que é apaixonado pelo que é e pelo que faz.

Textos


MINHA FIEL COMPANHEIRA TORNOZELEIRA

 

 

 

 

 

É muito amor o sentimento
Que essa gata tem por mim:
Não me larga um só momento...
Essa pretinha é assim!

 

 

Aonde vou, ela vai comigo,
Sem convite, sem eu querer;
Parece querer ser meu abrigo,
Mas só quer de tudo saber.

 

 

Ela não sai do meu pé,
Me monitora a semana inteira;
Não conhece amor nem fé:
O nome dela é tornozeleira.

 

 

Quem me apresentou essa senhora
Já nos chamou de “mané”;
Ela não deixa de contar a hora,
E eu conto os dias, mantendo a fé.

 

 

Não me deixa sair de casa,
Cada passo ela quer saber;
Meu pensamento ainda cria asa,
Mas meus pés não podem correr.

 

 

O que eu fazia, hoje não faço:
Há limites para caminhar.
Ela acompanha cada passo,
Sem ter pernas para andar.

 

 

É fiel, implacável companheira,
De sábado até sexta-feira;
Não tira folga, nem de brincadeira,
E se julga de mim a dona inteira.

 

 

Não é aliança de casamento,
Nem promessa que eu quis fazer;
É testemunha do meu tormento,
De um laço que não escolhi ter.

 

 

Da janela, vejo a vida
Passar sem me dar a mão;
Cada pessoa de partida
Desperta um desejo no coração.

 

 

Sinto falta da caminhada,
Da conversa em qualquer lugar,
De escolher a hora da chegada,
De sair só para passear.

 

 

Se me sento para escrever,
Ela fica quieta, à espreita;
Não entende o meu padecer,
Mas no meu tornozelo se ajeita.

 

 

Faço da mágoa poesia,
Dou à tristeza outro lugar;
Se ela vigia a noite e o dia,
Não pode me impedir de sonhar.

 

 

Não quero essa união forçada,
Nem lhe prometo amor eterno;
Quero a liberdade recuperada
E outros assuntos no caderno.

 

 

Quando chegar a despedida,
Não haverá pranto nem dor;
Vou abrir a porta para a vida,
Sem saudade desse “amor”.

Rubens Lima
Enviado por Rubens Lima em 02/11/2026
Alterado em 02/11/2026


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