MINHA FIEL COMPANHEIRA TORNOZELEIRA
É muito amor o sentimento
Que essa gata tem por mim:
Não me larga um só momento...
Essa pretinha é assim!
Aonde vou, ela vai comigo,
Sem convite, sem eu querer;
Parece querer ser meu abrigo,
Mas só quer de tudo saber.
Ela não sai do meu pé,
Me monitora a semana inteira;
Não conhece amor nem fé:
O nome dela é tornozeleira.
Quem me apresentou essa senhora
Já nos chamou de “mané”;
Ela não deixa de contar a hora,
E eu conto os dias, mantendo a fé.
Não me deixa sair de casa,
Cada passo ela quer saber;
Meu pensamento ainda cria asa,
Mas meus pés não podem correr.
O que eu fazia, hoje não faço:
Há limites para caminhar.
Ela acompanha cada passo,
Sem ter pernas para andar.
É fiel, implacável companheira,
De sábado até sexta-feira;
Não tira folga, nem de brincadeira,
E se julga de mim a dona inteira.
Não é aliança de casamento,
Nem promessa que eu quis fazer;
É testemunha do meu tormento,
De um laço que não escolhi ter.
Da janela, vejo a vida
Passar sem me dar a mão;
Cada pessoa de partida
Desperta um desejo no coração.
Sinto falta da caminhada,
Da conversa em qualquer lugar,
De escolher a hora da chegada,
De sair só para passear.
Se me sento para escrever,
Ela fica quieta, à espreita;
Não entende o meu padecer,
Mas no meu tornozelo se ajeita.
Faço da mágoa poesia,
Dou à tristeza outro lugar;
Se ela vigia a noite e o dia,
Não pode me impedir de sonhar.
Não quero essa união forçada,
Nem lhe prometo amor eterno;
Quero a liberdade recuperada
E outros assuntos no caderno.
Quando chegar a despedida,
Não haverá pranto nem dor;
Vou abrir a porta para a vida,
Sem saudade desse “amor”.